quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Missão de Ensinar

Missão nobre mas também ingrata dos professores.
Não é de hoje mas se sempre.
Em baixo trancrevo o texto do século XVI que mostra como já nessa altura essa atividade era complexa e para isso sugeriam-se algumas pistas.

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

“Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.” 

Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.” 

“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.” 

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.” 

“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”
 
"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência

Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores. 

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores

O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos." 

Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mais uma maravilha da cantora Teresa Salgueiro.

A não perder.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

TERAPIA DO ELOGIO

Ora aqui está algo que nos faz muita falta.

"Terapeutas que trabalham com famílias, divulgaram numa recente pesquisa que os membros das famílias estão cada vez mais frios, mais distantes, o carinho é cada vez menos, não se valorizam as qualidades, facilmente se ouvem críticas.
As pessoas estão cada vez mais intolerantes e desgastam-se na valorização dos defeitos dos outros.
Por isso, as relações de hoje não duram.
A ausência de elogio está cada vez mais presente nas famílias. Não vemos mais os homens a elogiar as suas mulheres ou vice-versa, não vemos os chefes a elogiar o trabalho de seus subordinados, não vemos mais pais e filhos a elogiar-se; etc.
Só vemos futilidades: valorizam-se artistas, cantores, jogadores, pessoas que usam a imagem para ganhar dinheiro e que, por consequência, são pessoas que tem a obrigação de cuidar do corpo, do rosto, das aparências.
A ausência de elogio afecta muito as pessoas e as famílias.
Há falta de diálogo nos lares. O orgulho e a agitação da vida impede que as pessoas digam o que sentem.
Depois despejam-se essas carências nos consultórios.
Acabam-se casamentos, alguns procurando noutra pessoa o que não conseguem dentro de casa.
Vamos começar a valorizar as nossas famílias, os nossos amigos, alunos ou subordinados.
Vamos elogiar o bom profissional, a boa atitude, a ética, a beleza do parceiro ou parceira, o comportamento de nossos filhos.
O bom profissional gosta de ser reconhecido, o bom filho fica feliz por ser louvado, o pai e a boa mãe sentem-se bem ao serem amados e amparados.
O amigo quer sentir-se querido.
Vivemos numa sociedade em que cada um precisa do outro; é impossível uma pessoa viver sozinha e sentir-se feliz. Os elogios são forte motivação na vida de cada um.
Quantas pessoas posso fazer hoje feliz elogiando-as de alguma forma?
Começa agora.
És uma excelente pessoa!"

Arthur Nogueira (Psicólogo)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O rio MONDEGO

"Mondego" by Daniel Pinheiro from Daniel Pinheiro on Vimeo.

da nascente até à foz contém uma beleza natural verdadeiramente impar.
Aqui fica o desafio para quem o quiser percorrer desfrutando a plenitude do seu ecossistema.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Natureza no seu esplendor

A Natureza na plenitude do seu espendor e beleza e o homem na da sua capacidade de nos poder demonstrar tudo isto.
Esta síntese leva-nos à felicidade.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O MEDO

Mia Couto faz um dissertação brilhante sobre o medo.
Algo digno de ser escutado e meditado por todos nós.
Nesse sentido aqui fica a sua comunicação.
Clique aqui.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Vinicius de Morais e a Amizade

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas ? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe porque ? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele !

-- Vinícius de Moraes

Frases, poemas e mensagens no
http://pensador.uol.com.br


segunda-feira, 30 de maio de 2011

VIVER

"O homem, esmagado pelas suas ocupações, com tudo se ocupa menos com viver"
Séneca

Este filósofo tem toda a razão.
Todos sabemos que só se vive uma vez e essa vez é agora.
Ora se nos deixamos esmagar pelas ocupações e solicitações exageradas de cada dia acabamos por fazer tudo isso menos aquilo que é realmente importante, isto é, VIVER.
Este é um desafio para que chegamos capazes de nos libertarmos dessas ocupações exageradas que nos limitam a nossa vivência com dignidade.
Aníbal Carvalho

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

EDUCAR HOJE? COMO?

Sob o título de "eu acuso" o professor brasileiro, Igor Pantuzza Wildmann, escreveu o texto que se transcreve, colocando o dedo na ferida do que tem sido o processo de ensino aprendizagem no Brasil. No entanto constato, com grande mágoa, que cá tal como lá a realidade é a mesma, sendo apenas diferente no número de casos.
Porque me quero associar a este grito de revolta publicito aqui a sua mensagem para que possa ser conhecida de mais gente para que todos unidos possamos começar a inverter todo o processo.
Aníbal Carvalho


"Eu acuso !

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice. (Émile Zola)

Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (...) (Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição;

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos - clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.
Igor Pantuzza Wildmann

Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário."

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

POBRES DOS NOSSOS RICOS

Mia Couto é um escritor e poeta Moçambicano. A sua leitura da sociedade permite-lhe ir para além das evidências.
É essa leitura sublime mas também crítica que ele faz aos que se dizem ricos mas que não passam de uns míseros pobres.
Com o devido respeito aqui reproduzo o seu poema.
Aníbal Carvalho

" A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir
riqueza, produz ricos.

Mais ricos sem riqueza.

Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de
endinheirados.

Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.

Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa
que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos «ricos».

Aquilo que têm, não detêm.

Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade dos outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém estes nossos endinheirados usufruir em
tranquilidade de tudo quanto roubaram.

Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais `altura.

Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles
próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões
para a criminalidade.

Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem."

Mia Couto

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Votos para 2011

Às vezes somos tentados a utilizar palavras e frases de circunstância quer para nos despedirmos do Ano Velho quer para saudar o Ano Novo.
Mais que as palavras são as imagens e aquilo que lhe possamos associar.
É com esse espírito que aqui deixo este vídeo que me chegou à mão e que com o devido respeito pelo autor aqui reproduzo.
Com ele quero manifestar o meu sincero desejo para todos os meus amigos e os que aqui venham ao Blog, nem que seja por acaso.

Um FELIZ 2011.
Aníbal Carvalho

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Amigos vs Inimigos

É bom ter amigos, mas por vezes, parece que estão longe e desanimando vivemos como se eles não existissem. No entanto, pior que os não ter ou não os sentir é não ter inimigos, como diz o autor que cito em baixo.

" É triste não ter amigos ? Ainda mais triste é não ter inimigos, porque quem não tem inimigos é sinal que não tem talento que faça sombra, carácter que impressione, coragem para que o temam, honra contra a qual murmurem, bens que lhe cobicem nem coisa alguma que lhe invejem ..."
François-Marie Arouet

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

UM SEGREDO DE UM CASAMENTO FELIZ.

Miguel Esteves Cardoso é um cronista que por vezes nos surpreende e desconcerta com as suas crónicas, desafiadoras e interpelativas.
Nesta crónica ele dá-nos Boas Razões para um casamento poder ser Feliz. Basta que ambos queiram.
Para isso é preciso escolher prioridades na relação, e a primeira e pela qual se luta é mesmo querer mesmo ser Feliz, e não dizer que se quer e depois deixar andar à espera que o outro faça tudo sozinho.

Aníbal Carvalho

"Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento. Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.
Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.
O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.
O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.
Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados. Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.
Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.
Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.
E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro. Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar."


25.10.2010 - Miguel Esteves Cardoso

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

SAUDADE

Depois das férias, uma pessoa minha amiga, mandou-me para reflexão, este maravilhoso poema de Fernando Pessoa sobre a separação e a saudade que ela provoca em cada um de nós. Perante tal dureza, mas tão real, o que eu possa dizer não significa nada. No entanto, as palavras do poeta são, além de verdadeiras, acutilantes e desafiadoras. É com este espírito que aqui reproduzo o poema.


"Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que partilhámos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...
do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje já não tenho tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.

Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas
que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto
se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo...

Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
perguntarão:
Quem são aquelas pessoas?

Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!

- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons
anos da minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...

Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.

E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
daquele dia em diante.

Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a
sua vida isolada do passado.

E perder-nos-emos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos!"

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O TEMPO E A CONTA

Com o decorrer do tempo vamos ficando cada vez mais conscientes da precariedade da vida e da importância que cada fracção de tempo tem para aquilo que fazemos ou deixamos de fazer.
A este propósito encontrei um poema de Frei Castello Branco (Séc.XVIII), chamado, o Tempo e a Conta, e que pela sua beleza aqui reproduzo, esperando que alguns leitores se sintam interpelados por ele.

"Deus nos pede do tempo estreita conta
E é forçoso dar conta, a Deus, do tempo!
Mas como dar do tempo tanta conta,
Se se perde, sem conta, tanto tempo?

Para fazer a tempo a minha conta,
Dado me foi, por conta, muito tempo.
Mas não cuidei no tempo, e foi-se a conta,
E eis-me agora sem conta... eis-me sem tempo...

Ó vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não o gasteis, sem conta, em passatempo;
Cuidai, enquanto é tempo, em terdes conta.

Ah! Se quem isto conta, do seu tempo
Tivesse feito a tempo, apreço e conta,
Não chorara, sem conta, o não ter tempo!"

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Brevidade da vida

Quase todos nós vivemos cada dia e cada ano como se tivéssemos uma eternidade para viver. O facto é que todos os dias vão morrendo pessoas, mais ou menos próximas de cada um de nós e nem assim assumimos essa brevidade.
Deixo aqui esta pequena estória, que pela sua simplicidade e singeleza, nos pode levar a uma profunda reflexão sobre o que andamos aqui a fazer.
Aníbal Carvalho

"O maior prazer de uma pessoa inteligente é bancar o idiota diante de um idiota que banca o inteligente."
Só de passagem ...
Conta-se que no século passado, um turista americano foi à cidade do Cairo no Egipto, com o objectivo de visitar um famoso sábio. O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.- Onde estão seus móveis? Perguntou o turista. E o sábio, bem depressa olhou ao seu redor e perguntou também:- E onde estão os seus...?- Os meus?! Surpreendeu-se o turista.- Mas estou aqui só de passagem!- Eu também... - concluiu o sábio.
"A vida na Terra é somente uma passagem... No entanto, alguns vivem como se fossem ficar aqui eternamente, e se esquecem de ser felizes."

"NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL... SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA..."

Preparação para o matrimónio de Pixar

terça-feira, 13 de julho de 2010

Uma questão de sanidade mental dos portugueses

Pedro Afonso é um médico psiquiatra e por isso nada melhor do que ele para nos falar do estado mental dos portugueses.
Este texto foi publicado no jornal diário, Público no dia 21.06.2010. Ele reflecte bem o momento que se vive no nosso país e quais algumas das causas que lhe deram origem.
Será bom que meditemos nisto e olhemos para os políticos que decidem e fazem leis.
Aníbal Carvalho

"Recentemente ficou a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque nos últimos quinze anos o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos. Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da segurança social. Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria. Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais. E hesito prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente."
Pedro Afonso. Médico Psiquiatra

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ser idoso e ser desprezado

Cada vez mais a nossa sociedade utiliza a técnica dos “descartáveis” que é, compra, usa e deita fora. Este processo também se aplica muitas vezes em relação às pessoas menos capazes ou até aquelas que sendo capazes são consideradas “velhas”.
A comprovar tudo isso vem este texto escrito com e alma e com coragem, por uma senhora idosa mas que revela a plenitude da sua vida.
É para promover o respeito e a dignidade dos mais velhos que coloco aqui o grito e o apelo desta senhora.
Esta senhora idosa morreu numa clínica da Escócia e todos pensavam que ela nada tinha deixado. No entanto, algumas enfermeiras encontraram junto dos seus poucos haveres um pequeno poema.
Este poema foi levado para a Irlanda e aí publicado na edição de Natal da notícia da União para a Saúde Mental na Irlanda do Norte.
Aníbal Carvalho


“Que vêem amigas? Que vêem ?
Que pensam quando me olham?
Uma velha rabugenta não muito inteligente
de hábitos incertos, com seus olhos sonhadores fixos ao longe?
A velha que cospe comida, que não responde
ao tentar ser convencida... “De, fazer um pequeno esforço?"
A velha, que vocês acreditam que não se dá conta
das coisas que vocês fazem e que continuamente
perde a sua escova ou o sapato ?
A velha, que contra sua vontade, mas humildemente lhes permite
a fazer o que queiram,que me banhem e me alimentem
só para o dia passar mais depressa....
É isso que vocês acham?É isso que vocês vêem?
Se assim for, abram os olhos, amigas, porque
isso que vocês vêem não sou eu!
Vou-lhes dizer quem sou, quando estou sentada aqui,
tão tranquila como me ordenaram...
Sou uma menina de 10 anos, que tem pai e mãe,
irmãos e irmãs que se amam.
Sou uma jovenzinha de 16 anos. Com asas nos pés,
e que sonha encontrar seu amado.
Sou uma noiva aos 20,
Que o coração salta nas lembranças,
Quando fiz a promessa
Que me uniu até o fim de meus dias com o AMOR de minha vida.
Sou ainda uma moça com 25 anos,
Que tem seus filhos,
Que precisam que eu os guie...
Tenho um lugar seguro e feliz !
Sou a mulher com 30 anos.
Onde os filhos crescem rápido,
E estamos unidos com laços que deveriam durar para sempre...
Quando tenho 40 anos
Meus filhos já cresceram
E não estão em casa...
Mas ao meu lado está meu marido
Que me acalenta quando estou triste.
Aos cinquenta, mais uma vez comigo deixam os bebés,
meus netos,e de novo tenho a alegria das crianças,
meus entes queridos junto a mim.
Aos 60 anos,
sobre mim nuvens escuras aparecem, meu marido está morto;
e quando olho o meu futuro arrepio-me toda de terror.
Os meus filhos foram-se, e agora têm os seus próprios filhos...
Então penso em tudo o que aconteceu e no amor que conheci.
Agora sou uma velha.
Que cruel é a natureza....
A velhice é uma piada
Que transforma um ser humano
Num alienado.
O corpo murcha
Os atractivos e a força desaparecem
Ali, onde uma vez houve um coração
Agora há uma pedra.

No entanto, nestas ruínas, a menina de 16 anos ainda está viva.
E o meu coração cansado, ainda está repleto de sentimentos
Vivos e conhecidos
Recordo os dias felizes e tristes
Nos meus pensamentos volto a amar e a viver o meu passado.
Penso em todos esses anos
Que foram, ao mesmo tempo poucos
Mas que passaram muito rápido,
E aceito o inevitável..
Que nada pode durar para sempre...por isso, abram os vossos olhos e vejam
Que diante de vocês não está uma velha mal-humorada.
Diante de vocês estou apenas “EU...”
Uma menina, mulher e senhora
Viva...!! E com todos os sentimentos de uma vida...
Lembrem-se deste poema da próxima vez que se encontrar com uma pessoa idosa mal-humorada e não a rejeitem,
Sem olhar primeiro a sua Alma Jovem…”

Mais tarde ou mais cedo qualquer um de nós também vai poder estar neste lugar, por isso não menospreze essa possibilidade.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Os cristãos e a crise de valores

Habitualmente queixamo-nos que a sociedade em geral é contrária aos valores fundamentais da fé cristã. Mas podemos nos perguntar-nos. Como cristãos que temos feito nós para inverter essa tendência?
O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa numa conferência das Jornadas Pastorais da CEP, enviou uma mensagem muito importante para todos os católicos comprometidos com a Igreja e com a sociedade.
Não podemos ficar indiferentes nem permanecermos amorfos perante as necessidades da sociedade. Temos de ser "sal" e "luz" para o mundo de hoje. Para que isso seja mais fácil reproduzo aqui a sua mensagem integral.
Aníbal Carvalho

"Introdução1.- A obrigação de estar atento aos “sinais dos tempos” para intuir os caminhos da missão, em cada tempo e circunstância concretos, é dos maiores desafios pastorais do Concílio Vaticano II, o que melhor define a maneira de conceber a presença da Igreja na sociedade e a sua missão de salvação.
Logo no início, o Concílio rejeitou um texto condenatório dos erros da sociedade contemporânea. O Concílio não se reunia para condenar, mas para anunciar a salvação. A verdade da Igreja na sociedade é a de enviada a anunciar a salvação, o que supõe que a Igreja participa do ardor e do amor salvífico de Jesus Cristo por uma humanidade em processo de salvação. Só amando o mundo se podem captar os sinais que a realidade emite, para que a Igreja intua caminhos concretos de missão. A Gaudium et Spes é a Constituição Pastoral que exprime esta perspectiva que inspirou todo o Concílio. A começar, afirma: “O Concílio, testemunha e guia da fé de todo o Povo de Deus, reunido por Cristo, não poderia dar uma prova mais eloquente de solidariedade, de respeito e de amor ao conjunto da família humana, a que este Povo pertence, que fazer prova de diálogo com ela sobre os diferentes problemas, iluminando-os à luz do Evangelho e pondo à disposição do género humano o poder salvífico que a Igreja, conduzida pelo Espírito, recebe do seu Fundador” (1). E acrescenta: “para levar a bom termo esta tarefa, a Igreja tem o dever, em cada momento, de perscrutar os sinais dos tempos e de os interpretar à luz do Evangelho” (2).
E no capítulo sobre a dignidade da vocação humana, insiste: “Movido pela fé, sabendo-se conduzido pelo Espírito do Senhor que enche o Universo, o Povo de Deus esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e nos anseios do nosso tempo, de que participa com todos os outros homens, quais são os verdadeiros sinais da presença ou desígnio de Deus” (3).

2.- Não é um convite à simples análise sociológica, mas à intuição profética. O verbo escolhido é importante: trata-se de “perscrutar”, o que lembra a atitude dos profetas que estavam à espreita, para perceber nos acontecimentos o modo e a circunstância do seu anúncio. Só da fé e do amor salvífico de Deus pode brotar essa “intuição”, esse “perscrutar” dos sinais, que indicam portas abertas ao anúncio da salvação e do desígnio de Deus para a humanidade. “A fé esclarece todas as coisas com uma luz nova” (4), uma fé que nos revela o amor salvífico de Deus pela humanidade, e a certeza que nunca a abandona através da acção do Espírito que enche toda a terra. Perceber a sua missão de natureza visível com esta acção invisível do Espírito em toda a humanidade, é desafio contínuo, dirigido à Igreja.

“Sinais dos tempos” e nova Evangelização
3.- Há uma convergência entre este dever da Igreja de “perscrutar”, na realidade do mundo, os “sinais” do Reino de Deus, e o desafio lançado por João Paulo II de uma “nova evangelização”, aliás presente na Evangeli Nuntiandi de Paulo VI. O que a distingue da simples re-evangelização, é um novo ardor que nos ajudará a descobrir os “novos métodos”, isto é, um modo novo de anunciar. Este novo ardor é o do amor salvífico, da paixão amorosa pela salvação do mundo. Sem amar o mundo com este amor ardente, não haverá “nova evangelização”, e esse amor é participação no amor infinito de Jesus Cristo, que oferece continuamente a sua vida pelo Povo que redimiu e pelo mundo que ama.

Uma nova atitude perante a sociedade
4.- Este é um ponto prévio para uma leitura actual dos “sinais dos tempos”: olhar o mundo com amor e com esperança. Podemos cair, facilmente de mais, na atitude de condenação da sociedade actual. Mas é possível amar o mundo sem concordar com o mundo. O anúncio cristão pode, por vezes, ser uma denúncia, embora deva ser, sobretudo, anúncio. Mas se começa pela denúncia, corre o risco de nunca ser anúncio.
Este olhar construtivo sobre a sociedade, por parte da Igreja, tem como fundamento duas dimensões: a certeza da fé que Deus ama o mundo e que o Espírito Santo está em acção, levando muitos homens e mulheres a buscarem a rectidão de consciência, a lutarem pela justiça e pela defesa da dignidade do homem, a procurarem para a sociedade caminhos de dignidade, de generosidade e de solidariedade; e que os valores explicitamente enunciados na doutrina da Igreja não são apenas afirmados, mas vividos e postos em prática na luta por uma sociedade renovada. O Santo Padre deixou-nos essa mensagem: “De uma visão sábia sobre a vida e sobre o mundo deriva o ordenamento justo da sociedade. Situada na história, a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida. Não se trata de um confronto ético entre um sistema laico e um sistema religioso, mas de uma questão de sentido, à qual se entrega a própria liberdade”(5). Mas adverte-nos: “Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos, exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio” (6).
Esta atitude aberta e dialogante é afirmada por Bento XVI ainda no avião a caminho de Lisboa, falando da dialéctica entre secularismo e fé: “A dialéctica entre secularismo e fé tem uma longa história em Portugal. Já no século XVIII há uma forte presença do Iluminismo. Basta pensar no nome Pombal. Assim, vemos que Portugal viveu sempre, nesses séculos, na dialéctica que, naturalmente hoje, se radicalizou e se mostra com todos os sinais do espírito europeu de hoje. Este parece-me um desafio e uma grande possibilidade. Nesses séculos de dialéctica entre Iluminismo, secularismo e fé, nunca faltaram pessoas que quiseram estabelecer pontes e criar um diálogo, ainda que, infelizmente, a tendência dominante foi a da contraposição e da exclusão de um e de outro. Hoje, vemos que justamente esta dialéctica é uma chance; que devemos encontrar uma síntese e um diálogo profundo e de vanguarda” (7).
Esta atitude dialogante da Igreja perante a sociedade real, com os seus valores e os seus desvios, não pode significar uma cedência. Em todas as circunstâncias, a Igreja deve anunciar a perspectiva evangélica, os próprios atropelos à verdade, à justiça, e à dignidade do homem são ocasião desse anúncio, antes, exigem esse anúncio, que não pode ser apenas denúncia negativa, mas afirmação do nosso empenho no progresso da humanidade. Se nos limitarmos à denúncia a nossa voz pode ser facilmente interpretada como mera tomada de posição política e ser vítima de fundamentalismos. E estes, sejam de matriz religiosa ou ideológica, acabam sempre por roçar a intervenção política na defesa de posições pessoais ou grupais, isolando a verdade que defendem da verdade fundamental que é o amor salvífico de Deus. Esquecem facilmente que por detrás de um erro, se podem abrir portas a outras dimensões da verdade.

Novas formas de intervenção da Igreja na sociedade
5.- Frente à actual realidade da sociedade portuguesa, ouso ter um pressentimento: é preciso encontrar formas novas de intervenção da Igreja na sociedade. A Igreja faz parte integrante do todo da sociedade e dada a qualidade da sua mensagem e o número dos seus membros, não pode deixar de procurar formas sempre novas para contribuir para o bem da comunidade humana em que está integrada.
Estamos a cair na situação anacrónica que qualquer intervenção da Igreja, de modo particular da hierarquia, em dimensões fundamentais como o são uma sã antropologia ou a defesa de valores éticos é facilmente julgada como intervenção na esfera do estritamente político, esquecendo que o domínio político é todo o interesse pelo bem da “polis”. É preciso valorizar a Igreja como o conjunto dos fiéis, a comunidade crente, e não a identificar só com a hierarquia. Esta, por decisão própria e em defesa do carácter específico do seu ministério, abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito do estritamente político. Mas os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes, no seio da sociedade, dos autênticos valores cristãos. Aliás, pressinto que virá dos leigos a energia para esta renovação da intervenção da Igreja na sociedade. O Santo Padre, dirigindo-se aos Bispos, sublinha a importância decisiva de um “laicado maduro”: “Os tempos que vivemos exigem um novo vigor missionário dos cristãos chamados a formar um laicado maduro, identificado com a Igreja, solidário com a complexa transformação do mundo. Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos, onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação que professam e promovem uma proposta mono-cultural com menosprezo pela dimensão religiosa e contemplativa da vida. Em tais âmbitos, não faltam crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã”(8).
A intervenção profética da Igreja na sociedade contemporânea tem de privilegiar a proclamação de uma correcta antropologia, levando à descoberta do mistério do homem, de que decorre a defesa ética dos princípios da convivência humana, em ordem à construção duma sociedade fraterna. Este desafio antropológico esteve fortemente presente na palavra do Papa entre nós. Referindo-se à contribuição da Igreja no “ordenamento justo da sociedade”, explicita: “Situada na história, a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza a essencial consideração do sentido humano da vida” (9). Esta sã antropologia tem de integrar a dimensão transcendente da vida humana, “integrar a fé e a racionalidade moderna numa única visão antropológica, que completa o ser humano e torna, desse modo, comunicáveis as culturas humanas”(10).
Só desta compreensão do homem e da sua transcendência brota uma ética da convivência para a construção da sociedade. A exigência ética envolve toda a existência humana, pessoal e comunitária, a vida e o amor, o trabalho e a economia.
Aprofundar o conhecimento do mistério e da dignidade do homem, donde decorre uma visão ética da vida, supõe um esforço acrescido de formação do laicado. A doutrina social da Igreja continua a ser a grande desconhecida. Só esse aprofundamento cultural formará a consciência dos cristãos sobre todas as dimensões da vida humana, pessoal e comunitariamente considerada. É impressionante verificar a pouca importância que a dimensão ética tem nas escolhas políticas. E no entanto, em democracia participativa, o voto deveria ser sempre a escolha de uma consciência bem formada e esclarecida. A Igreja deve lutar por isso, o que não significa o imiscuir-se no estritamente político. Esse esforço de formação será uma luta pela liberdade.

Atenção a quantos buscam o sentido da vida6.- O texto da Gaudium et Spes, já citado, refere como contexto do dever de discernir os “sinais dos tempos” a necessidade de a Igreja responder “de forma adaptada a cada geração, sobre as questões eternas dos homens acerca do sentido da vida presente e futura e das suas relações recíprocas” (11).
Esta busca do sentido é, hoje, a maior expressão da densidade da existência humana, diria mesmo, do drama humano. O que é a vida, o que é o amor, que sentido tem o sofrimento? As mutações sociais, que não é possível referir aqui, adensaram este drama do sentido, relativizaram as respostas adquiridas e transmitidas, lançaram dúvidas sobre a porta a que se deve bater para encontrar uma resposta. Encontro um pequeno eco desta inquietação nas muitas mensagens que me são dirigidas, procurando uma resposta, exigindo que a Igreja seja uma resposta.
Ler os “sinais” para que a Igreja seja a resposta adaptada a cada geração. Sinto que muitos já não procuram, espontaneamente, a resposta da Igreja, na sua acção institucional. Será que as nossas estruturas de acolhimento estão preparadas para essa resposta, adaptada à geração presente? Apesar de tantos “pastores” e de a acção da Igreja dever ser toda pastoral, esta multidão, como no tempo de Jesus, continua a parecer “um rebanho sem pastor”.
O texto do Concílio fala, depois, das questões eternas do sentido da vida presente e futura e das suas relações mútuas. É preocupante a evolução na nossa sociedade e mesmo entre os cristãos, sobre a fé na vida eterna. Muitos já não acreditam nela e mesmo os que não a excluem não fazem dela o objectivo mobilizador da esperança e não fazem a relação dessa esperança com o sentido da vida presente. Ouçamos, mais uma vez, a palavra do Papa entre nós. Falando aos sacerdotes e consagrados, disse-lhes: “Na acção apostólica e na missão, tendeis para a Jerusalém Celeste, antecipais a Igreja escatológica, firme na posse e contemplação amorosa de Deus-Amor. Como é grande, hoje, a necessidade deste testemunho! Muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse um Além, sem se importar com a própria salvação eterna. Os homens são chamados a aderir ao conhecimento e ao amor de Deus, e a Igreja tem a missão de os ajudar nesta vocação. Bem sabemos que Deus é senhor dos seus dons; e a conversão dos homens é graça. Mas somos responsáveis pelo anúncio da fé, da totalidade da fé, e das suas exigências” (12).
Neste aspecto, ler os “sinais” é ter a coragem de rever a qualidade e o ritmo da formação cristã no seu todo, desde a catequese à pregação.
Nas respostas a dar a esta busca do sentido, adaptadas a cada geração, sou particularmente sensível ao universo juvenil. No seu todo eles buscam respostas, sem sequer rejeitar aprioristicamente a resposta de Jesus Cristo, mas não a encontram nas respostas da Igreja, ou porque nem sequer a escutam ou porque não a compreendem. É preciso dar-lha de forma que a compreendam e lhes toque o coração. O Papa falou-lhes e comoveu muitos: “Jovens amigos, Cristo está sempre connosco e caminha sempre com a sua Igreja, acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-l’O nos pobres. Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz. Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-l’O. Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura” (13). Ler os “sinais” é aceitar o desafio de rever profundamente a nossa pastoral juvenil.

Atenção amorosa ao sofrimento dos nossos irmãos7.- No texto da Gaudium et Spes, ler os “sinais” faz-se numa atenção privilegiada ao sofrimento humano, aos aspectos por vezes dramáticos da vida de tantos homens e mulheres do nosso tempo. É assim que começa a Constituição Pastoral: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens deste tempo, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (14).
A cultura contemporânea tende a mitigar ou mesmo a esconder estas angústias e tristezas, porque se criou o paradigma de uma organização social que tudo resolve. A Igreja deve ser a aliada natural de quem sofre, a doença, a pobreza, a solidão, não apenas para os servir mas para aprender com eles o que significa o “Evangelho anunciado aos pobres”.
A resposta social da Igreja é, como sabemos, volumosa e estruturada. Não é agora o momento de a analisar. Quero apenas referir dois desafios que nos deixou o Santo Padre: a prática da compaixão e a análise das nossas instituições sociais, em busca da sua especificidade e autenticidade evangélica. Aconselha-nos a ter a atitude do bom samaritano. Há um modo próprio de os cristãos se abeirarem do sofrimento dos irmãos: ter “um coração que vê”, um coração que vê onde há necessidade de amor e age em consequência (15). A pastoral da caridade é uma pastoral de proximidade, de vizinhança. É perante a circunstância concreta de uma pessoa que tem nome, que o coração do cristão se comove.
As nossas estruturas, dando relevo aos aspectos organizativos e de competência técnica, podem ofuscar este “coração que vê”. O Santo Padre alertou-nos para isso: “Muitas vezes, porém, não é fácil conseguir uma síntese satisfatória da vida espiritual com a acção apostólica. A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e fascinante, acaba por influir sobre o nosso modo de pensar os nossos projectos e as perspectivas do nosso serviço, com o risco de esvaziá-los da motivação da fé e da esperança cristã que os tinha suscitado. Os pedidos numerosos e prementes de ajuda e amparo que nos dirigem os pobres e marginalizados da sociedade impelem-nos a buscar soluções que estejam na lógica da eficácia, do efeito visível e da publicidade. E todavia a referida síntese é absolutamente necessária para poderdes, amados irmãos, servir Cristo na humanidade que vos espera. Neste mundo dividido, impõe-se a todos uma profunda e autêntica unidade de coração, de espírito e de acção” (16).
E o Papa não hesita em pedir-nos que façamos uma profunda reflexão sobre as nossas instituições, que pretendem ser a expressão da caridade da Igreja: “No meio de tantas instituições sociais que servem o bem comum, próximas de populações carenciadas, contam-se as da Igreja Católica. Importa que seja clara a sua orientação de modo a assumirem uma identidade bem patente: na inspiração dos seus objectivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de actuação, na qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios. A firmeza da identidade das instituições é um serviço real, com grandes vantagens para os que dele beneficiam. Passo fundamental, além da identidade e unido a ela, é conceder à actividade caritativa cristã autonomia e independência da política e das ideologias (cf. Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31 b), ainda que em cooperação com organismos do Estado para atingir fins comuns” (17).

Aceitemos o desafio da Gaudium et Spes8.- A leitura dos sinais dos tempos não pode ser, apenas, um tema sugestivo e interessante. É, sobretudo, um desafio profético de quem reage com amor à realidade da história. É a solicitude salvífica que nos faz estar atentos, à espreita, para captar “sinais”, aberturas à mensagem de salvação. “Sinais dos tempos”, são alertas emitidos da profundidade da realidade humana e do âmago da nossa história. Não são conclusões sociológicas, mas “sinais” do Reino. Como dizia o P. Congar, naqueles tempos conciliares, é o homem, na sua realidade, a bater à porta da Igreja, pedindo-lhe que lhe abra o Evangelho na página que ele precisa de ler naquele momento. A sua própria realidade torna-o capaz de a escutar.
Procurar novos caminhos de renovação pastoral é incompleto sem esta ousadia profética, embora saibamos que, como o oráculo profético, a leitura dos “sinais dos tempos” não é programável nem previsível. Conseguimos apenas identificar as características da fé e da vida eclesial que hão-de tornar possível essa leitura.
Antes de mais temos de ter consciência, sobretudo nós os clérigos, que a Igreja é o Povo de Deus, que os leigos têm um papel decisivo na renovação da Igreja e que também são chamados a ler os “sinais”. Isto exige de nós, pastores, que inculquemos neles a paixão por Jesus Cristo, a urgência da salvação, a ousadia da santidade. O Papa disse-nos isso, a nós Bispos, acerca dos leigos de quem somos pastores: “Mantende viva a dimensão profética sem mordaças no cenário do mundo actual, porque «a palavra de Deus não pode ser acorrentada» (2Tm 2, 9). As pessoas clamam pela Boa Nova de Jesus Cristo, que dá sentido às suas vidas e salvaguarda a sua dignidade. Como primeiros evangelizadores, ser-vos-á útil conhecer e compreender os diversos factores sociais e culturais, avaliar as carências espirituais e programar eficazmente os recursos pastorais; decisivo, porém, é conseguir inculcar em todos os agentes evangelizadores um verdadeiro ardor de santidade, cientes de que o resultado provém sobretudo da união com Cristo e da acção do seu Espírito” (18).
A proclamação da fé, a nossa e a de todos os cristãos, tem de ter a força de um testemunho. Mais uma vez, a palavra do Santo Padre: “Quando no sentir de muitos a fé católica deixa de ser património comum da sociedade e, frequentemente, se vê como uma semente insidiada e ofuscada por «divindades» e senhores deste mundo, muito dificilmente aquela poderá tocar os corações, graças a simples discursos ou apelos morais e menos ainda a genéricos apelos aos valores cristãos. O apelo corajoso e integral aos princípios é essencial e indispensável. Todavia a mera enunciação da mensagem não chega ao mais fundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a vida. Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele” (19).
É preciso restituir à Igreja o seu dinamismo pastoral, isto é, fazer da Igreja toda sacramento da bondade de Cristo Pastor. A pastoral não é apenas a arte de programar, mas a manifestação, no concreto da história, do amor de Jesus Cristo pelos homens. Mas é decisivo que os sacerdotes redescubram, no exercício do seu ministério, o modelo do Pastor. Trabalhamos mais do que amamos, criamos estruturas mas quando as pessoas precisam do pastor, nós estamos ocupados. Como diz João no Apocalipse, escutemos o que Cristo diz aos pastores das Igrejas (cf. Apoc. 1,19 e 2,1ss).

Fátima, 16 de Junho de 2010

†JOSÉ, Cardeal-Patriarca

_______________________________________________

NOTAS:

1 - Gaudium et Spes, n.º 3
2 - Ibidem, n.º 4
3 - Ibidem, n.º 11
4 - Ibidem
5 - Bento XVI em Portugal, Discurso no Aeroporto da Portela, 11 de Maio de 2010
6 - Ibidem
7 - Bento XVI, diálogo com os Jornalistas durante o Voo para Portugal, 11 de Maio de 2010
8 - Bento XVI, Discurso no Encontro com os Bispos de Portugal, Fátima, 13 de Maio de 2010
9 - Bento XVI em Portugal, Discurso no Aeroporto da Portela, 11 de Maio de 2010
10 - Bento XVI, diálogo com os Jornalistas durante o Voo para Portugal, 11 de Maio de 2010
11 - Gaudium et Spes, n.º 4
12 - Bento XVI, Discurso na Celebração das Vésperas com os Sacerdotes, Religiosos, Seminaristas e Diáconos, Fátima, 12 de Maio de 2010
13 - Bento XVI, Homilia da Missa no Terreiro do Paço, Lisboa, 11 de Maio de 2010
14 - Gaudium et Spes, n.º 1
15 - Bento XVI, Encontro com as Organizações da Pastoral Social, Fátima, 13 de Maio de 2010
16 - Ibidem
17 - Ibidem
18 - Bento XVI, Discurso no Encontro com os Bispos de Portugal, Fátima, 13 de Maio de 2010
19 - Ibidem

[ Documentos D. José Policarpo 2010-06-16 11:02:16 Conferência Episcopal Portuguesa ]"